COMUNIDADE

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A Mansão do Passeio é feita das pessoas que a habitam. Profissionais, empreendedores e criadores que partilham mais do que um espaço, partilham uma forma de trabalhar com propósito e de construir com intenção.


Bem-vindo à nossa comunidade!

Vozes da Comunidade

RICE 'N SADO

Arroz biológico português cultivado na Reserva Natural do Estuário do Sado, na Comporta. Certificado PT-BIO-06, livre de arsénio e resíduos tóxicos - um arroz de qualidade superior, com origem e sabor genuinamente locais.


Arroz biológico português cultivado na Reserva Natural do Estuário do Sado, na Comporta. Certificado PT-BIO-06, livre de arsénio e resíduos tóxicos - um arroz de qualidade superior, com origem e sabor genuinamente locais.

RICE 'N SADO

Destaques da Mansão

Networking

Jantar de Networking - 24 de Setembro

No dia 24 de setembro, às 20h00, convidamos-te para um jantar de networking no Grão no Rio, em Alcácer do Sal.

Nesta noite especial, celebramos também a abertura deste novo restaurante às margens do Sado, o cenário perfeito para juntarmos boa comida, convívio e novas ligações num ambiente informal e acolhedor. É a oportunidade ideal para conheceres o espaço, encontrares outros profissionais e empresários da região, trocar ideias e criar parcerias, tudo à volta de uma mesa e de uma seleção gastronómica pensada ao pormenor.

Com sabores bem alentejanos e produtos locais, este é daqueles serões que ficam na memória e podem dar origem a novos projetos.


Menu Especial da Noite

Para Começar
Pão alentejano na mesa
Queijo fresco de Alcácer do Sal
Hummus de beterraba com dip de legumes
Bolinhas de alheira com maçã verde e compota de mirtilo

Prato Principal
Massada de garoupa e camarão

Prato Vegetariano
Gnocchi de tomatada com espinafre e picadinho de noz

Bebidas
Água sem gás, refrigerantes, café e descafeinado.
Vinho branco e tinto da seleção Grão no Rio (uma garrafa por cada três pessoas).

Sobremesa
Brownie de chocolate alentejano com ganache de chocolate e frutos vermelhos.


O valor é de 30€ por pessoa para membros da Mansão do Passeio e 35€ por pessoa para o público em geral. As vagas são limitadas para garantir um ambiente próximo e confortável.

👉 Reserva o teu lugar através do e-mail contacto@mansao.pt e junta-te a nós nesta noite especial.



Assinaturas do Tempo

António Paiva, pela memória de Luísa Paiva

Há vidas que permanecem gravadas na pedra das cidades. Outras permanecem na memória das pessoas. O percurso do escultor António Paiva pertence às duas dimensões: a das obras que resistem ao tempo e a das histórias humanas que continuam a ser contadas por quem com ele conviveu.


António Paiva, no seu ateliê nas Janelas Verdes


Para compreender verdadeiramente esse percurso, talvez seja preciso começar por algo simples: a forma como via o mundo. A sua filha, Luísa Paiva, descreve-o com uma palavra que explica muito do que foi a sua vida e a sua obra. “Ele era um humanista.” Mais do que uma definição intelectual, era uma forma de estar, uma curiosidade constante pelas pessoas, pelas suas histórias e pela vida quotidiana.

António Paiva não era alguém que se limitasse a círculos culturais ou académicos. Pelo contrário, sentia-se confortável em qualquer conversa. Como recorda Luísa, “não era uma pessoa que procurasse apenas uma elite intelectual”. Gostava de falar com todos, de ouvir histórias, de observar gestos e comportamentos. As conversas deambulavam por distintos temas, enquanto percorriam incontáveis horas, o seu interesse pelo mundo era genuíno.

Esse olhar começou-se a formar muito cedo, na infância passada em Alcácer do Sal e na quinta da sua família. Ali, no ritmo tranquilo da vida rural, desenvolveu uma capacidade de observação que nunca o abandonaria. Luísa recorda que o pai era “extremamente observador”. Pequenos acontecimentos podiam prender-lhe a atenção durante muito tempo. Se um animal estivesse a nascer ou se algo inesperado acontecesse no campo, ele parava para ver, para compreender e para sentir aquele momento.

Escultura de baixo relevo "Via Sacra", localizada na igreja de Águas em Penamacor, imagem da 2ª estação


Essa sensibilidade acabaria por encontrar lugar na sua escultura. Sempre que não estava a responder a encomendas específicas, regressava naturalmente às figuras que conhecia desde a infância: trabalhadores do campo, animais, gestos simples do quotidiano. Eram imagens profundamente humanas, nascidas de uma memória afetiva que nunca desapareceu.

Mas a arte, para António Paiva, nunca foi apenas um trabalho. Era a própria vida. Em casa, recorda Luísa, não existia uma fronteira clara entre o artista e o homem. Criar fazia parte da sua forma de existir. “A vida era o trabalho e o trabalho era a vida”, diz, lembrando a forma natural como o pai encarava o ofício.

Apesar dessa dimensão quase orgânica da criação, o escultor mantinha uma disciplina impressionante. Levantava-se cedo todos os dias e dirigia-se ao ateliê nas Janelas Verdes ainda pela manhã. Havia uma razão muito concreta para isso: a luz. “A luz da manhã era excelente para a escultura”, explica Luísa. É nesse momento do dia que os volumes se revelam com mais clareza, que as sombras desenham as formas e permitem perceber verdadeiramente a matéria.

Os primeiros raios dourados e o silêncio interrompido pelo cantarolar dos passarinhos era sagrado. Esse momento pertencia exclusivamente a ele e ao trabalho, um espaço de concentração profunda onde dificilmente algo interferia. No silêncio do ateliê, passava horas a trabalhar as formas, a transformar pedra e matéria em figuras que lentamente ganhavam presença.

Escultura "Dom Quixote, contra os moinhos"


À tarde, o ritmo mudava. Quando não estava a dar aulas na escola de Belas Artes, surgia a outra dimensão da sua personalidade: a do convívio. António Paiva apreciava as longas tertúlias, encontros onde a conversa se prolongava entre arte, política, humor e histórias de vida. Era, recorda Luísa com carinho, “uma pessoa divertidíssima”.

Por trás desse humor existia também uma grande sensibilidade humana. Era alguém profundamente empático, capaz de perceber rapidamente o estado de espírito das pessoas à sua volta. Observava muito. Gostava de olhar para o mundo como quem lê um livro aberto. Às vezes bastava sentar-se à janela de casa e observar a rua. As pessoas passavam, e ele começava a imaginar histórias: para onde iam, de onde vinham, o que poderiam estar a pensar naquele momento.

Essa curiosidade pela vida alimentava também a sua criatividade.

As amizades artísticas faziam parte dessa energia. Viagens, encontros e experiências partilhadas marcaram muitas fases do seu percurso. Quando recebeu uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para estudar em Itália, a viagem acabou por transformar-se numa aventura coletiva. Como conta Luísa, foi realizar o seu trabalho de investigação, mas “levou a trupe toda”. Entre estudo, descoberta e amizade, a experiência acabou por refletir aquilo que sempre foi: alguém que vivia a arte em comunidade.

Escultura em bronze, "Mulher do Chapéu de Sol", baseada numa fotografia da mãe do escultor


Apesar do reconhecimento que foi alcançando ao longo da carreira, António Paiva manteve sempre uma relação muito simples com a ideia de sucesso. Não era algo que procurasse. O que verdadeiramente lhe importava era a consistência do trabalho. Acreditava que, se esse trabalho fosse “continuado, sério e consistente”, o seu valor acabaria por se revelar com o tempo. Essa postura refletia-se na sua relação com a autoria: António Paiva nunca assinava as suas obras, recusando qualquer protagonismo que desviasse a atenção do essencial, o próprio trabalho artístico.

Os contextos históricos também influenciaram o seu percurso. Nos anos que se seguiram à revolução de 1974, o país atravessava um período de transformação profunda e as encomendas públicas tornaram-se mais raras. Muitos artistas passaram então a criar por iniciativa própria. 

Foi nesse período que surgiram muitas esculturas de menor dimensão. Em vez das grandes obras destinadas ao espaço público, começaram a aparecer peças mais pequenas, muitas vezes entre quarenta centímetros e pouco mais de um metro. Para a filha, essas esculturas têm uma energia muito particular. “Eu adoro essas peças”, diz, lembrando a liberdade criativa que nelas se sente.

Algumas exploravam temas inesperados. Uma delas chama-se A Fífia. Representa três músicos, e a cena sugere um momento divertido: o músico do meio parece ter desafinado, enquanto os outros o observam com uma mistura de surpresa e reprovação. Talhadas diretamente em bloco de mármore, essas esculturas revelam um lado mais leve e espontâneo da sua criação.

Escultura em mármore de Estremoz, talhe direto, "A Fífia"


Talvez seja precisamente por isso que continuam a tocar quem as observa. Foram feitas sem encomenda, sem pressa, apenas pela vontade de dar forma a uma ideia.

A história de António Paiva também se cruzou com momentos complexos da história portuguesa. Proveniente de um meio ligado ao período do Estado Novo, viveu décadas de mudanças profundas no país. Com o passar do tempo, alguns artistas associados a esse contexto acabaram por ser menos referidos no discurso cultural.

Escultura em bronze, "Ceifeiro"


Luísa recorda ter lido recentemente um texto que descrevia bem esse fenómeno, referindo a existência de “formas discretas de esquecimento”. Não se trata de censura direta, mas de um silêncio lento que, ao longo dos anos, pode afastar certos nomes da memória coletiva.

Mas a memória humana tem caminhos próprios.

Quando o nome de António Paiva surge em conversas com antigos alunos ou pessoas que com ele conviveram, a reação continua muitas vezes marcada pela emoção. Muitos lembram-se não apenas do escultor, mas do homem, curioso, atento, generoso e profundamente interessado na vida à sua volta.

Para Luísa, a herança mais importante que recebeu do pai não foi apenas artística. Foi sobretudo uma forma de olhar para o mundo. António Paiva era, diz, “uma pessoa muito luminosa”. Alguém que acreditava na vida, que procurava sempre encontrar soluções, que enfrentava os problemas sem perder a esperança.

Talvez seja por isso que a sua presença continua a ser sentida.


Porque algumas pessoas deixam obras. Outras deixam uma forma de viver. 


Até hoje não temos conhecimento de todas as suas obras, ele assim quis, mantendo acesa a chama da curiosidade com cada nova obra descoberta, uma das muitas assinaturas que deixa no tempo.

Assinaturas do Tempo

Alejandro Perez

O percurso empreendedor raramente é linear. É feito de tentativas, erros, recomeços e, sobretudo, de escolhas difíceis.

A história de Alejandro Perez ilustra bem essa realidade. Empreendedor chileno, atualmente residente em Alcácer do Sal, Alejandro acumula quase duas décadas de experiência nas áreas da logística e do comércio eletrónico. Ao longo desse percurso, desenvolveu diversos projetos empresariais, aprendendo tanto com os insucessos como com os êxitos, e consolidando uma visão de liderança prática, ética e profundamente humana.

A sua jornada empreendedora teve início em 2006, enquanto concluía a licenciatura em Chicago. Nessa fase, procurava ativamente oportunidades, conversava com profissionais de diferentes áreas e analisava vários setores de atividade. Foi esse processo exploratório que o conduziu ao setor da logística e, posteriormente, ao seu primeiro negócio.

A decisão de empreender surgiu quando encontrou os parceiros certos. Ainda assim, o início esteve longe de ser fácil. A primeira ideia falhou logo no primeiro ano, obrigando a equipa a repensar totalmente o projeto. “No começo falhámos. Tivemos de pivotar, encontrar outra ideia, e só a segunda foi realmente bem-sucedida”, admite.

Em 2018 nasce a Farmex, um dos projetos mais marcantes do seu percurso. A ideia surgiu a partir da identificação de um problema estrutural no mercado farmacêutico chileno, onde os preços dos medicamentos eram extremamente elevados.


“O Chile era o país mais caro da América Latina, e havia três grandes empresas farmacêuticas coludidas”, afirma.


Paralelamente, o comércio eletrónico era praticamente inexistente neste setor. Alejandro percebeu que a digitalização poderia ser a chave para introduzir maior transparência e concorrência no mercado. “Eu não sabia muito sobre a indústria, mas sabia que o e-commerce traz transparência de preços e competição. E eu queria estar lá desde o início”, explica. No entanto, a legislação chilena não previa, à data, a venda online de medicamentos, o que obrigou a empresa a iniciar atividade através de uma farmácia física, cumprindo rigorosamente o enquadramento legal.

A pandemia de Covid-19 acabou por acelerar esse modelo de negócio. Com um dos confinamentos mais rigorosos a nível mundial, a compra online tornou-se essencial, consolidando a proposta de valor da Farmex.

Apesar do sucesso alcançado, a empresa mantém o seu foco no mercado doméstico. A experiência com outros projetos, como a Shopex, ensinou-lhe que a internacionalização exige cautela e preparação. “Um dos maiores erros que cometi foi abrir muitos países ao mesmo tempo, sem uma estrutura sólida”, reconhece. A expansão precipitada resultou em perdas financeiras e deixou uma lição clara: “Antes de abrir num novo país, é preciso saber exatamente que recursos e estrutura se tem. Não é barato e é muito complexo”.

O crescimento dos seus negócios foi maioritariamente sustentado por capital próprio e pelo apoio de parceiros passivos. Para quem pondera levantar investimento externo, Alejandro deixa um aviso claro:


“Criar capital é uma boa forma de crescer rápido, mas a minha recomendação é esperar o máximo possível”. Segundo ele, captar investimento demasiado cedo pode ter custos elevados. “Se o fizeres no início, podes perder 50% da tua empresa. Se esperares, vais perder uma percentagem muito menor”.


No plano estratégico, considera que muitos empreendedores se deixam conduzir excessivamente pela emoção. “As emoções são boas, mas precisam de ser combinadas com números”, defende. Essa visão reflete-se também na forma como constrói e gere equipas.

Enquanto líder, valoriza ambientes de trabalho flexíveis e orientados para resultados.


“Prefiro trabalhar com pessoas felizes e flexíveis, e não tão focadas em horários. Trabalho com base em resultados, não em controlo”


Já relativamente ao trabalho remoto, a sua posição é clara: “É difícil liderar uma empresa remotamente”. Embora reconheça que algumas funções o permitam, acredita que a liderança exige proximidade. “Prefiro falar cara a cara com as pessoas”.

No centro da sua filosofia de liderança estão valores simples, mas exigentes. “É preciso ser claro, confiar na equipa e não falhar com as pessoas”, afirma. Para Alejandro, a honestidade é inegociável. “Se as pessoas não acreditam no que lhes dizes, é impossível trabalhar com elas”.

Se tivesse de deixar um conselho final a quem está a iniciar o seu percurso, resume-o de forma direta:


“Se tens vocação para o empreendedorismo, tenta. Cria a tua empresa, encontra parceiros e faz o que gostas de fazer. Na vida, é importante fazer aquilo de que realmente gostamos. Se gostas de ser empreendedor, segue esse caminho”


A trajetória de Alejandro Perez demonstra que o empreendedorismo não é apenas um exercício de ambição ou crescimento económico, mas um percurso de aprendizagem contínua, responsabilidade e coerência pessoal. Entre falhas, recomeços e decisões difíceis, construiu uma visão assente na ética, na clareza e no respeito pelas pessoas com quem trabalha.

Mais do que histórias de sucesso, o seu percurso revela a importância de saber esperar, de crescer de forma consciente e de compreender que liderar é, antes de tudo, um ato de confiança. 

Num ecossistema frequentemente marcado pela pressa e pela exaltação do crescimento a qualquer custo, Alejandro lembra-nos que a solidez constrói-se com tempo, rigor e propósito.

No fim, a sua mensagem é simples, mas poderosa: empreender faz sentido quando está alinhado com aquilo que somos e com o impacto que queremos deixar. Porque o verdadeiro sucesso não está apenas nos resultados alcançados, mas na forma como se chega até eles.

Evento

2.º Aniversário da Mansão do Passeio

No passado dia 26 de maio, assinalámos o 2.º aniversário da Mansão do Passeio. Parece que foi ontem que abrimos as portas deste projeto com a vontade de criar um espaço onde pessoas, empresas e ideias pudessem encontrar-se e crescer. Dois anos depois, olhamos para trás com orgulho no caminho percorrido e, sobretudo, nas relações que fomos construindo ao longo deste tempo.

Mais do que um edifício ou um local de trabalho, a Mansão do Passeio tornou-se um ponto de encontro para profissionais de diferentes áreas, projetos em desenvolvimento e pessoas que valorizam a partilha, a colaboração e a proximidade no dia a dia.

A celebração deste aniversário foi um momento especial para reunir parte da nossa comunidade, recordar conquistas, partilhar histórias e agradecer a todos os que fazem parte desta jornada. Residentes, parceiros, clientes e amigos contribuíram, cada um à sua maneira, para aquilo que a Mansão é hoje.

A todos, deixamos o nosso sincero obrigado pela confiança, pela presença e por fazerem parte desta história.

Partilhamos agora algumas fotografias deste dia tão especial.

➡️ Veja a galeria completa aqui: https://galleries.vidflow.co/r3dhh2rf/obzi5rq0

Assinaturas do Tempo

Randy M. Ataíde

Há trajetórias que não se constroem em linha reta. Desenvolvem-se em camadas, feitas de experiências distintas que, ao longo dos anos, se entrelaçam e revelam um sentido mais profundo. A vida de Randy M. Ataíde é uma dessas histórias.

Com mais de meio século de percurso profissional, Randy atravessou universos aparentemente paralelos, da Marinha dos Estados Unidos ao direito, da teologia à academia e, mais tarde, ao investimento e ao desenvolvimento de projetos. Ainda assim, quando fala sobre liderança, não começa por cargos ou conquistas. Começa pelas pessoas.

Ao revisitar o seu percurso, reconhece que os momentos verdadeiramente estruturantes raramente se anunciaram com grandiosidade. Pelo contrário, surgiram sob a forma de gestos breves, quase invisíveis no instante em que aconteceram, mas que o tempo viria a revelar como decisivos na construção do seu olhar sobre si próprio e sobre o mundo.

Recorda, em particular, a fala curta de um oficial após um exercício físico particularmente exigente. Não foi um discurso, nem uma exortação. Foi apenas uma frase, lançada no momento certo, com a leveza de quem talvez não soubesse o peso que transportava. “Foi um comentário breve”, lembra,


“mas despertou em mim uma confiança que eu ainda não tinha reconhecido.” 


Já mais tarde, no final do seu percurso universitário, surgiram outras palavras, igualmente simples, vindas de colegas que, quase em tom casual, lhe sugeriram a possibilidade de ter perfil para a advocacia, uma ideia que nunca tinha atravessado o seu próprio pensamento. E, no entanto, bastou surgir vindo de outro olhar para que começasse, lentamente, a ganhar lugar dentro de si.

Estes momentos, aparentemente periféricos, revelam-se, com o tempo, como pontos de viragem silenciosos. Mostram como o percurso humano raramente é apenas autodeterminado, é também tecido por olhares alheios e frases soltas.

Já no universo do investimento, o contacto com profissionais mais experientes aprofundou essa perceção de forma ainda mais exigente: a de que o conhecimento não se encerra, nem se possui em definitivo. Ele permanece sempre inacabado, exigindo uma postura de abertura contínua, quase uma disciplina da curiosidade.

Ao longo dos anos, Randy manteve essa curiosidade como princípio estruturante, deslocando-se entre áreas do saber com uma naturalidade que não procura dispersão, mas ampliação de sentido. Como sintetiza,


“o mundo é um lugar extraordinário, se estivermos dispostos a ouvir e a aprender”.


É a partir dessa mesma disposição para observar, compreender e integrar perspetivas diversas que se torna particularmente relevante a sua experiência enquanto professor de empreendedorismo, onde acompanhou várias gerações de jovens na transição entre ideias e a tentativa concreta de as transformar em projetos viáveis. Esse contacto prolongado com diferentes perfis e motivações permitiu-lhe, ao longo do tempo, reconhecer padrões recorrentes na forma como se constrói, e também na forma como se falha a criação de uma empresa.

Um dos equívocos mais frequentes surge precisamente na forma como se interpreta o ponto de partida: a tendência para confundir o impulso criativo inicial com a capacidade efetiva de sustentar algo no tempo. Na leitura de Randy, iniciar um projeto pode ser um gesto profundamente individual, quase intuitivo, mas desenvolver uma empresa implica uma natureza completamente distinta do esforço.

“É impossível construir uma empresa sem depender de outras pessoas”, explica. A verdadeira construção acontece quando se passa da ideia à cooperação, quando se reconhecem limitações próprias, se valorizam competências alheias e se cria espaço efetivo para que outros participem no crescimento do projeto.

Outro erro recorrente manifesta-se na escolha de equipas demasiado homogéneas, marcadas por formas de pensar excessivamente semelhantes. Na sua perspetiva, as organizações mais sólidas não são aquelas onde reina a uniformidade, mas sim aquelas onde diferentes perspetivas coexistem e se desafiam mutuamente. A diversidade de pensamento não constitui um obstáculo; antes representa uma das principais fontes de resiliência e inovação de qualquer projeto coletivo.

É precisamente a partir desta atenção à forma como se constroem estruturas duradouras, mais do que apenas à sua aparência imediata, que se torna possível compreender uma das influências menos evidentes, mas mais estruturantes, na sua visão sobre investimento e crescimento empresarial: a agricultura. Tendo crescido numa região rural da Califórnia, habituou-se desde cedo a um tipo de temporalidade distinta, onde as decisões são tomadas num presente cujos resultados apenas se revelam anos mais tarde. Esse contacto com a lógica do tempo imprimiu-lhe uma noção particular de paciência e continuidade.

No universo empresarial contemporâneo, onde muitas decisões tendem a ser orientadas pela urgência do imediato, Randy procura recentrar a atenção no que considera essencial: aquilo que sustenta o crescimento ao longo do tempo. Para si, os primeiros investimentos de uma empresa raramente se traduzem em elementos visíveis ou imediatamente reconhecíveis; concentram-se antes nos sistemas, nos processos e, sobretudo, nas pessoas que lhes dão consistência.


“Se a base estiver bem construída”, observa, “o resto terá condições para crescer”.


Para ilustrar esta ideia, recorre frequentemente a uma expressão latina herdada da tradição da engenharia romana: sublato fundamento cadit opus. A ideia é simples, mas estrutural: quando o fundamento desaparece, toda a estrutura acaba inevitavelmente por ruir. Na sua leitura, esta metáfora mantém uma atualidade particularmente exigente, lembrando que nenhum crescimento pode ser verdadeiramente sustentável sem bases sólidas que o suportem.

Essa mesma atenção ao que sustenta, ao que, mesmo invisível, determina a consistência do todo, estende-se também à forma como observa os lugares e os processos de transformação que neles ocorrem ao longo do tempo. A sua relação com Portugal começou há mais de duas décadas e foi-se consolidando de forma progressiva, num percurso feito de proximidade crescente e de descobertas sucessivas. Foi nesse contexto mais alargado que acabou por encontrar Alcácer do Sal.

Para um olhar exterior, poderia parecer uma escolha inesperada no percurso de alguém com experiência internacional. Mas para Randy havia ali uma familiaridade imediata, ainda que difícil de verbalizar. A paisagem tranquila, o ritmo mais contido e a relação próxima entre as pessoas evocavam-lhe dimensões da sua própria origem, criando uma sensação de continuidade mais do que de contraste.

Ao mesmo tempo, identificou naquele território algo que já tinha observado anteriormente nos Estados Unidos: o modo como, quando determinadas zonas costeiras atingem níveis elevados de valorização, o crescimento tende a deslocar-se para áreas próximas, ainda acessíveis, mas com elevado potencial de desenvolvimento. Nesse enquadramento, Alcácer do Sal surgia como um espaço particularmente interessante, pela sua localização, história e qualidade de vida.

Foi nesse contexto que surgiu a oportunidade de recuperar um edifício histórico que viria a dar origem à Mansão do Passeio. O objetivo inicial era relativamente simples: devolver funcionalidade e vida a uma casa que permanecia desocupada há vários anos. A estrutura do edifício, porém, revelava-se sólida e bem preservada, permitindo imaginar desde cedo a possibilidade de um novo ciclo.

Com o tempo, o projeto foi ganhando outra densidade. À medida que o contexto envolvente evoluía, também a leitura do espaço se foi ampliando. Num período em que o setor do alojamento local se tornava progressivamente mais competitivo, tornou-se claro que existia ali uma oportunidade distinta: a de criar um lugar orientado para o encontro entre pessoas, empresas e projetos, mais do que para uma utilização exclusivamente habitacional ou turística.

Hoje, a Mansão do Passeio assume-se como um espaço de trabalho, colaboração e partilha, onde diferentes iniciativas se cruzam e onde novas ideias encontram condições para se desenvolver. Sem perder a ligação ao território, procura também acompanhar uma visão mais ampla do seu futuro, em que o desenvolvimento de Alcácer do Sal possa resultar da articulação entre diferentes pontos da cidade, da frente ribeirinha às zonas comerciais, passando pelos espaços públicos que estruturam a vida quotidiana da comunidade. Nesse equilíbrio, a Mansão procura assumir um papel discreto, mas significativo, na vitalidade do lugar onde se insere.

No final da conversa, quando lhe é pedido um conselho para quem inicia hoje o seu percurso profissional, a resposta surge sem hesitação: “procurem estar perto de pessoas inteligentes”. Para Randy, a exposição constante a diferentes formas de pensar, a escuta ativa e a curiosidade contínua são alguns dos motores mais consistentes de crescimento.


Porque, como refere, “em qualquer idade, há sempre muito mais para aprender”.